Qual a relação dos recursos naturais com as práticas culturais?

Por Lucrécia Braz dos Santos*

 

 

 

 

 

 

 

       Quando falamos no uso dos recursos naturais em práticas culturais, não estamos falando apenas no uso dos recursos para alimentação, como a caça de animais silvestres, uso da lenha como combustível para cozinhar alimentos e uso de plantas medicinais na cura de enfermidades. Estamos falando também da utilização dos recursos em festivais, danças, canções e rituais. Esses conhecimentos e práticas culturais fazem parte da vida de muitos povos e são transmitidas ao longo das gerações. Mas será que essas práticas permanecem intactas ao longo do tempo? Será que elas sofrem alterações? Quais fatores poderiam provocar alterações? Quais as consequências dessas mudanças?


          As práticas culturais não permanecem exatamente as mesmas ao longo do tempo, elas sofrem alterações devido a alguns fatores, como mudanças ambientais, econômicas e culturais e isso pode até levar a perda do conhecimento local ao longo do tempo e tem implicações diretas sobre o futuro uso dos recursos naturais. Dessa forma, é importante entender a relação dos grupos humanos com os recursos naturais, uma vez que essas práticas culturais usam e transmitem informações sobre o mundo natural. 


        Nesse contexto, um grupo de pesquisadores desenvolveu um estudo com integrantes do “cavalo marinho”, nos estados de Pernambuco e Paraíba, com o objetivo de compreender a dinâmica do conhecimento e uso dos recursos naturais empregados para sua execução. O “Cavalo Marinho” é expressão da cultura popular do nordeste brasileiro que reúne teatro, música e dança.  


          Os participantes do “cavalo marinho” possuíam maior conhecimento de plantas nativas e animais domésticos na expressão cultural. Apesar desse conhecimento eles usavam frequentemente poucas espécies.  Os homens tinham maior conhecimento das espécies do que as mulheres, isso provavelmente deva-se ao fato que as mulheres entraram  a pouco tempo na prática do cavalo marinho e também são minoria. As pessoas com maior escolaridade e renda e aquelas cuja ocupação está relacionada a agricultura, cuidados domiciliares e arte, utilizam mais recursos do que outros participantes. 


       O fato de algumas espécies serem mais usadas em detrimento de outras, talvez seja devido à disponibilidade. Nos municípios estudados, os ambientes florestais que fornecem as espécies nativas usadas na prática do cavalo Marinho, ocorrem em áreas pertencentes a usinas de cana, que restringem o acesso da população aos recursos.  E para atender suas necessidades, os grupos de cavalo marinho estão substituindo alguns recursos naturais por produtos exóticos e espécies domesticadas, ou mesmo por objetos industrializados. 


          O uso da flora nativa se destaca em relação ao uso da flora exótica, apesar do acesso às florestas ser restrito. E mesmo diante das transformações ambientais e perda da biodiversidade que vem ocorrendo, a população preserva o conhecimento sobre a contribuição dos recursos vegetais nativos. O uso de animais silvestres foi pouco relatado nessa prática cultural, isso pode ser uma consequência das transformações ambientais que ocorreram na região ao longo do tempo, o que causou impacto imediato na disponibilidade de animais e cuja implicações são refletidas diretamente no conhecimento e uso desses recursos.

Abaixo você encontra o link para acessar o artigo.

          2019  

A biocultural approach to the use of natural resources in Northeast Brazil: A socioeconomic perspective. Acta Botanica Brasilica.  

Nylber Augusto da Silva, Ângelo Giuseppe Chaves Alves, Ulysses Paulino de Albuquerque, Marcelo Alves Ramos.  

https://www.semanticscholar.org/paper/A-biocultural-approach-to-the-use-of-natural-in-A-Silva-Alves/84f8f2aa28c6264f0e70ff5a53318ac592774422

*Lucrécia Braz dos Santos é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Piauí-UESPI. Atualmente é Bolsista de Cooperação Técnica (BCT) no Laboratório de Ecologia e Evolução de Sistemas Socioecológicos (LEA) do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Etnobiologia, Bioprospecção e Conservação da Natureza da UFPE, responsável pela parte de Divulgação Científica. 

Lattes: lattes.cnpq.br/3817142117520941

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