Estudo derruba hipótese popular da psicologia evolutiva!

Por Joelson Moura*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       Na história evolutiva, o período em que os primeiros humanos — ou hominídeos — enfrentaram seus maiores desafios foi durante o Pleistoceno*. Nesse período, era frequente a necessidade de procurar abrigo, plantas para tratar doenças, conseguir alimentos e, principalmente, ter que fugir e se esconder de perigosos e mortais predadores. Os hominídeos que enfrentassem bem esses desafios tinham mais chances de sobreviver e se reproduzir. Mas, para obter êxito nessas tarefas, o ambiente precisava dar uma mãozinha para nossos ancestrais. Imaginem, por exemplo, a difícil tarefa de ter que perceber a aproximação de predadores em um ambiente fechado e com árvores altíssimas. 
         Ao que tudo indica, o ambiente menos inóspito para viver no Pleistoceno foi a savana africana. Por ser um ambiente aberto e possuir algumas árvores esparsas, a savana ofereceu aos hominídeos uma visão panorâmica que facilitou tanto a observação da aproximação de predadores quanto a procura de alimentos. A savana foi tão importante para a sobrevivência dos hominídeos que influenciou o desenvolvimento de sua mente, de tal modo que alguns psicólogos evolutivos argumentam que ainda hoje o ser humano possui uma preferência universal por ambientes de savana — uma herança do passado —, ideia conhecida como hipótese da savana. Mas será que isso é realmente verdade?

       Alguns estudos mostraram que a paisagem do ambiente em que crescemos e nos desenvolvemos pode exercer influência sobre a herdada preferência por paisagem de savana. Além disso, dado todo esse tempo desde o surgimento dos hominídeos — há mais ou menos 2,5 milhões de anos —, é possível que outros ambientes tenham exercido influência sobre essa preferência, e foi exatamente isso que alguns pesquisadores vinculados ao INCT Etnobiologia, Bioprospecção e Conservação da Natureza tentaram entender.

      Os pesquisadores testaram se pessoas que vivem em ambientes com diferentes paisagens — Mata Atlântica, caatinga e paisagem urbana — do estado de Pernambuco, são influenciadas pelo ambiente que as cercam. Para isso, fizeram uma comparação minuciosa entre imagens que representam os seis principais biomas terrestres — savana, tundra, deserto, floresta tropical, floresta de coníferas e floresta estacional decidual — para observar se a savana seria de fato a paisagem preferida por essas pessoas.

     

              A descoberta dos pesquisadores não corroborou com a hipótese da savana, ou seja, a savana não foi a paisagem preferida, mas sim a paisagem de floresta tropical. Os autores são categóricos ao afirmar que não existe preferência universal por paisagem de savana. O fato de a floresta tropical ter sido a paisagem preferida em todos os três contextos ambientais analisados, sugere que a preferência por paisagem na espécie humana pode ter sido moldada em diferentes períodos da história evolutiva, e não apenas durante o período em que os hominídeos viviam na savana. 

       O mais interessante dessa pesquisa foi mostrar que, por mais que os desafios enfrentados na savana africana do Pleistoceno possam ter moldado a mente humana durante a história evolutiva, outros fatores e diferentes tipos de ambientes podem ter influenciado as preferências humanas por paisagens. Segundo os pesquisadores, é preciso que os psicólogos evolutivos tenham certa precaução antes de fazer generalizações, pois as diferentes trajetórias evolutivas que os humanos percorreram podem modificar preferências herdadas. 

 

*Na escala de tempo geológico, o Pleistoceno é a época compreendida entre 2,588 milhões e 11,7 mil anos atrás. Existem registros que a aparição dos primeiros seres humanos modernos se deu nessa época, mais especificamente no seu final — há cerca de 200 mil anos —, período conhecido como Pleistoceno Superior.

Abaixo você encontra o link para baixar o artigo.

             2018

 

The Influence of the Evolutionary Past on the Mind: An Analysis of the Preference for Landscapes in the Human Species. Frontiers 

Joelson Moreno Brito Moura; Washington Soares Ferreira Júnior;

Taline Cristina Silva; Ulysses Paulino Albuquerque

https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyg.2018.02485/full?&utm_source=Email_to_authors_&utm_medium=Email&utm_content=T1_11.5e1_author&utm_campaign=Email_publication&field=&journalName=Frontiers_in_Psychology&id=417461

*Joelson Moura é doutorando em Etnobiologia e Conservação da Natureza (UFRPE) e integra o Laboratório de Ecologia e Evolução de Sistemas Socioecológicos (LEA) da UFPE. Tem como interesse científico a compreensão dos processos que contribuíram para a evolução da mente humana.

Lattes: lattes.cnpq.br/4073348755490283

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