O contato entre índios e outros povos diminui o conhecimento tradicional?

Por Lucrécia Braz dos Santos *

 

Você acha que o contato de povos indígenas com pessoas não indígenas é algo negativo? Que os indígenas deveriam ficar isolados de todos os outros povos? Trabalhar apenas nas atividades da aldeia? Não deveriam estudar fora da aldeia? Fazer curso superior? Falar outra língua, além da língua nativa? As opiniões sobre essas questões são diversas e você certamente deve ter pensado várias coisas, como: “hoje os indígenas tem muito contato com povos não indígenas, muitos trabalham e estudam na cidade, tem índio doutor, índio que fala várias línguas e por aí vai”.


Mas só para relembrar, esse contato dos indígenas com outros povos, vem desde a chegada dos Europeus. Com o passar do tempo, esse contato se intensificou e tem provocado mudanças socioeconômicas e culturais. Algumas investigações sugerem que a principal mudança para esses povos pode estar relacionada com a diminuição do conhecimento tradicional a respeito de recursos naturais. 


    Um estudo desenvolvido por um grupo de pesquisadores com artesãos  da aldeia de  Fulni-ô, em Pernambuco, buscou  entender se o conhecimento local e coleta das folhas de Ouricuri (Syagrus coronata, é uma palmeira nativa da caatinga) são influenciados por fatores como idade, diversidade de fontes de renda, diversidade de recursos utilizados para a produção de artesanato, renda mensal, fluência na língua nativa, grau de parentesco e nível de educação. 

 

A prática de coletar folhas de Ouricuri é mantida por artesãos mais jovens, por aqueles que diversificam os recursos para a produção de artesanato e aqueles que tinham outras fontes de renda. No entanto, os Fulni–ô que utilizavam folhas dessa espécie apresentaram menores níveis de escolaridade quando comparados àqueles que não as utilizavam, demonstrando que maiores níveis de escolaridade contribuíram para a manutenção do conhecimento sobre o Ouricuri, mas não para a manutenção do uso das folhas dessa espécie.  As folhas de Ouricuri são geralmente coletadas pelos jovens, o que pode estar relacionado à maior facilidade de ir aos locais de coleta, uma vez que essa espécie é encontrada em locais de difícil acesso.  A língua nativa e o parentesco não interferiram na transmissão de conhecimento sobre o uso da folha de Ouricuri. 


Ouricuri tem grande importância para a identidade Fulni-ô, com expressiva relevância cultural, pois está envolvida em muitas atividades, como geração de renda pela produção artesanal e práticas religiosas.  Assim, esse resultado reforça a importância cultural  da espécie.  

 

Abaixo você encontra o link da página em que o artigo foi publicado.

           2019  

Socioeconomic Factors and Cultural Changes Explain the Knowledge and Use of Ouricuri Palm (Syagrus coronata) by the Fulni–ô Indigenous People of Northeast Brazil. Economic Botany

Juliana Loureiro Almeida Campos, Elcida de Lima Araújo, Orou G. Gaoue & Ulysses Paulino Albuquerque 

https://link.springer.com/article/10.1007/s12231-019-09457-0

*Lucrécia Braz dos Santos é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Piauí-UESPI. Atualmente é Bolsista de Cooperação Técnica (BCT) no Laboratório de Ecologia e Evolução de Sistemas Socioecológicos (LEA) do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Etnobiologia, Bioprospecção e Conservação da Natureza da UFPE, responsável pela parte de Divulgação Científica. 

Lattes: lattes.cnpq.br/3817142117520941

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