Recursos naturais: Restringir não é conservar? Conservar é dialogar?

Por Lucrécia Braz dos Santos*

 

 

 

 

 

 

 

      “Pegue a viola, e a sanfona que eu tocava, deixe o bule de café em cima do fogão... fogão de lenha...”  Este trecho da música “Fogão de Lenha” de Chitãozinho e Xororó, lembra a realidade de muitas famílias de baixa renda que moram em áreas rurais e fazem o uso da lenha para cozinhar os seus alimentos. Apesar de o fogo a lenha ter se tornado uma tendência e algo sofisticado para alguns, para muitos esta é a única opção para cozinhar os alimentos. Não é “glamour”, mas uma necessidade!


     Mas a coleta de lenha pode oferecer uma ameaça à biodiversidade, pois pode alterar o estado de conservação da vegetação. Frente a esse problema socioambiental, no Brasil, se destaca a criação de áreas protegidas. A exemplo, a floresta nacional do Araripe-FLONA, unidade de conservação de uso sustentável, que restringe o acesso das comunidades vizinhas a lenha, sendo permitido coletar apenas lenha seca, onde cada família é permitido coletar um metro cúbico de lenha e, adicionalmente, paga uma taxa mensal. 


     Diante deste contexto, um grupo de pesquisadores desenvolveu um estudo em uma comunidade rural do Ceará, próxima a floresta do Araripe, a fim de descrever as práticas de coleta de lenha e as percepções dos coletores, especialmente em relação à adaptação às regras ao plano de manejo local.


      Todos os membros da família coletam lenha durante todo o ano, sendo a coleta de lenha geralmente uma vez por dia, pela manhã e o principal meio de transporte é a bicicleta.  A maioria deles não concorda com as regras do plano de manejo, mas geralmente cumpriam essas regras.  Os moradores achavam que as regras do plano de manejo precisavam ser modificadas, principalmente aquelas relacionadas com o dia em que lenha pode ser coletada, as taxas cobradas e os meios de transporte.  Os entrevistados afirmaram que a coleta de lenha para uso doméstico na FLONA-Araripe deve continuar, principalmente devido às dificuldades financeiras das pessoas que necessitam do recurso.


    Assim, fica claro que os planos de manejo são importantes para a conservação da biodiversidade, mas precisam de avaliação e ajuste contínuo para atender às necessidades das populações locais.  O fato de a população discordar de algumas regras do plano de manejo, mostra que é necessário aumentar a participação dos moradores locais na construção desses planos.


      Embora a comunidade tenha participado no desenvolvimento do plano, os resultados mostram a necessidade de fazer mudanças nos regulamentos ao considerar o atual estilo de vida da comunidade, uma vez que restringir o uso dos recursos, possibilita o surgimento de conflitos socioambientais. Portanto, fica claro o quanto é importante que as populações diretamente afetadas participem efetivamente de todo processo de construção do plano de manejo, visto que essa participação pode contribuir para a conservação dos recursos naturais de forma significativa.   

Abaixo você encontra o link da página em que o artigo foi publicado.

          2019  

The use of firewood in protected forests: collection practices and analysis of legal restrictions to extractivism. Acta Botanica Brasilica.  

Luciana Gomes de Sousa Nascimento, Marcelo Alves Ramos, Ulysses Paulino Albuquerque, Elcida de Lima Araújo.  

https://doi.org/10.1590/0102-33062019abb0050 

*Lucrécia Braz dos Santos é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Piauí-UESPI. Atualmente é Bolsista de Cooperação Técnica (BCT) no Laboratório de Ecologia e Evolução de Sistemas Socioecológicos (LEA) do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Etnobiologia, Bioprospecção e Conservação da Natureza da UFPE, responsável pela parte de Divulgação Científica. 

Lattes: lattes.cnpq.br/3817142117520941

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