Os homens conhecem mais plantas medicinais do que as mulheres?

Por Lucrécia Braz dos Santos*

 

 

 

 

 

 

 

      Você já se perguntou desde quando as pessoas usam as plantas medicinais na cura de enfermidades?  Como esse conhecimento é mantido ao longo de gerações?  Como o gênero pode influenciar na manutenção desse conhecimento? As plantas medicinais são utilizadas há milhares de anos, acompanhando a evolução humana e representa parte importante da cultura de um povo.  Em certas comunidades, algumas plantas tem a mesma função (redundância utilitária), ou seja, diversas plantas são utilizadas na cura de uma mesma doença (por exemplo, várias plantas são usadas na cura de dor de barriga). Portanto, se uma planta é localmente extinta ou o seu uso é abandonado pelas pessoas, às plantas redundantes, podem garantir o tratamento da doença. 


       Existem dois fatores que são muito importantes na manutenção do conhecimento sobre as plantas medicinais: a redundância utilitária e a transmissão de conhecimento.  A redundância ajuda na manutenção de tratamentos das doenças, contribuindo para que o conhecimento seja mantido. Da mesma forma, a transmissão de conhecimentos é fundamental para a manutenção de tratamentos existentes, porque se o conhecimento é limitado a poucas pessoas e não é transmitido, quando essas pessoas deixam o sistema por qualquer motivo (falecimento, migração, por exemplo), pode ocorrer uma perda de conhecimento e consequentemente, a função medicinal desapareceria.  


    Um estudo foi realizado com o povo Fulni-ô, em Pernambuco, com a finalidade de entender como o gênero contribui para a manutenção do conhecimento a respeito do uso das plantas medicinais. Os resultados mostram que os homens conhecem um número maior de plantas medicinais, e maior número de doenças tratadas com essas plantas do que as mulheres, além de maior redundância utilitária. Em relação à transmissão de conhecimento, as mulheres aprendem mais com outras mulheres do que com homens, e os homens aprendem mais com outros homens.

 

     As mulheres compartilham mais conhecimento entre si do que entre os homens. Os homens podem ter uma maior contribuição para a continuidade e  manutenção do uso das plantas medicinais, pois eles fornecem um conhecimento maior da estrutura e função do sistema médico de  Fulni-ô. No entanto, as mulheres também tem importante contribuição, uma vez que socializam mais conhecimento do que os homens e, portanto, contribuem para a manutenção das funções. Dessa forma, tanto os homens, quanto as mulheres contribuem para o fluxo de informações no sistema médico, o que torna essencial o papel de ambos os sexos para manter esse rico conhecimento.

 

Abaixo você encontra o link da página em que o artigo foi publicado.

          2019  

Gender and its role in the resilience of local medical systems of the Fulni-ô people in NE Brazil: Effects on structure and functionality. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine

Wendy Torres-Avilez, André Luiz Borba do Nascimento, Flavia Rosa Santoro, Patricia Muniz de Medeiros, Ulysses Paulino Albuquerque 

https://www.hindawi.com/journals/ecam/2019/8313790/

*Lucrécia Braz dos Santos é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Piauí-UESPI. Atualmente é Bolsista de Cooperação Técnica (BCT) no Laboratório de Ecologia e Evolução de Sistemas Socioecológicos (LEA) do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Etnobiologia, Bioprospecção e Conservação da Natureza da UFPE, responsável pela parte de Divulgação Científica. 

Lattes: lattes.cnpq.br/3817142117520941

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