Caatinga: um potencial alimentício desconhecido?

Por Lucrécia Braz dos Santos*

 

 

 

 

 

 

 

O sertanejo é, antes de tudo, um forte” (Euclides da Cunha). Sim, é um forte, pois tem que se adaptar e sobreviver em meio a tantas adversidades do sertão... Adversidades como a seca e a falta de muitos recursos. Mas o sertão também tem muitas riquezas. Nossa caatinga apresenta uma rica biodiversidade de espécies vegetais, inclusive muitas delas, são comestíveis.  


Entender esse potencial, é de suma importância para a segurança alimentar e nutricional, pois além de a caatinga ser um dos ecossistemas brasileiros mais ameaçados pelos processos de degradação ambiental, está situada na região com a segunda maior prevalência de insegurança alimentar, ou seja, fome.  Dessa forma, faz-se necessário pensar em novas alternativas de alimentação e numa dieta sustentável. Dietas baseadas em plantas locais e que possui o potencial de forma a conciliar os objetivos do desenvolvimento sustentável, da segurança alimentar e nutricional e da conservação da vida na terra. 
Mas para conhecer o potencial das plantas alimentícias, deve-se mapear a biodiversidade alimentar disponível. Assim, um grupo de pesquisadores desenvolveu um estudo a fim de identificar quais as plantas alimentares que ocorrem no ecossistema caatinga são estratégicas para promover segurança alimentar nutricional, isso por meio de uma revisão sistemática de artigos publicados entre 2008 e 2020. 


Nos estudos revisados, foram mencionadas 65 espécies de plantas, destas 89% (58 plantas) correspondem a espécies nativas da caatinga, pertencentes a 22 famílias. Nos estudos foram fornecidos 35 itens comestíveis.  As plantas estratégicas, ou seja, aquelas entre as 65 que oferecem o maior potencial energético e proteico dentro da média do conjunto que lideram o ranking foram: Dioclea grandiflora (mucunã), Hymenaea courbaril L. (jatobá), Libidibia ferrea (pau ferro), Sideroxylon obtusifolium (quixabeira) e Syagrus cearensis (coco-catolé) se destacam como plantas cruciais, pois estão simultaneamente no ranking de plantas estratégicas e entre as mais citadas nos estudos. 
 

O fato da maioria das espécies serem nativas indica que elas podem estar positivamente relacionadas a dietas sustentáveis: (1) possuem capacidade de lidar com a seca; (2) melhora o suprimento e aumenta a diversidade de alimentos para as comunidades locais; (3) fazem parte do patrimônio cultural das populações locais;  (4) promovem soberania alimentar: proteger espécies nativas, incluindo sua propriedade biológica, é parte do processo de tomada de controle dos povos de sua herança alimentar. 
 

A promoção dessas plantas, no contexto de sistemas alimentares, depende de ações, como a integração da biodiversidade alimentar nas políticas e programas governamentais (Diretrizes de promoção de alimentação saudável, tais como no Guia Alimentar para a População Brasileira), além de incentivos agrícolas aos agricultores, registrando conhecimentos tradicionais e promovendo o uso sustentável de espécies e incentivando a pesquisa multidisciplinar. 
 

Cabe ressaltar que a riqueza de espécies pesquisada nesta revisão (n 65) subestima o potencial da biodiversidade de plantas alimentares na Caatinga. Essas lacunas sugere fortemente a necessidade de realizar revisão sistemática ou meta-análise dos dados que já existem. 

 

Abaixo você encontra o link da página em que o artigo foi publicado.

          2020  

Biodiverse food plants in the semiarid region of Brazil have unknown potential: A systematic review. PloS one, v. 15, pp. e0230936,

Michelle Cristine Medeiros Jacob; Maria Fernanda Araújo de Medeiros; Ulysses Paulino Albuquerque; 

https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0230936

*Lucrécia Braz dos Santos é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Piauí-UESPI. Atualmente é Bolsista de Cooperação Técnica (BCT) no Laboratório de Ecologia e Evolução de Sistemas Socioecológicos (LEA) do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Etnobiologia, Bioprospecção e Conservação da Natureza da UFPE, responsável pela parte de Divulgação Científica. 

Lattes: lattes.cnpq.br/3817142117520941

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