A caça de animais silvestres no Nordeste do Brasil

Por Lucrécia Braz dos Santos*

 

 

       

 

 

Você sabia que a caça profissional e esportiva de animais silvestres nem sempre foi proibida no Brasil? Mas como fica a situação das pessoas que vivem em extrema pobreza e  necessitam desse recurso para alimentação? E dos povos indígenas?


        Há mais de 50 anos a caça passou a ser proibida no Brasil. Mas em 1998, a caça de subsistência passou a ser permitida.   Em relação aos povos indígenas, a prática da caça é liberada, pois eles têm o direito de manter suas terras, tradições e modo de vida. 


          No Estado de Pernambuco, os Indígenas Fulni-ô praticam a caça mais frequentemente do que outras atividades como a pesca, devido ao regime de seca. A caça envolve apenas homens, e além da alimentação, os animais ou partes deles, também são utilizados em cerimônias religiosas e na produção de artesanatos. Será que durante as caçadas, esses povos utilizam algum critério na escolha das espécies? Quais seriam esses critérios?


          Neste contexto, um grupo de pesquisadores desenvolveu um estudo com os indígenas Fulni-ô com o objetivo de verificar se fatores como a sazonalidade do ambiente, a abundância e a biomassa de animais silvestres, bem como a proximidade com esses recursos, podem influenciar a caça. Os indígenas citaram 64 espécies caçadas e em um período de 1 ano foram capturados 673 animais, representando 209.866 kg de carne, pertencente a 23 espécies. As aves foram o grupo mais representativo, seguido dos mamíferos.  


        As variações das estações do ano não influenciaram no número de indivíduos caçados por espécie. Apenas a rolinha (Zenaida auriculata) foi mais caçada no período seco, que corresponde ao mesmo período do ritual Ouricuri (cerimônia religiosa), sendo predominantemente caçada neste intervalo. Em relação à proximidade com o recurso, o evento migratório (povo Fulni-Ô sai da aldeia e passa um período na floresta) relacionado ao ritual de Ouricuri, o que aumenta o contato dos Fulni-ô com os recursos naturais, não elevou o número de animais caçados. A abundância e a biomassa também não influenciaram na caça, e as espécies citadas como as preferidas são as mais caçadas na comunidade.  


         Parece que o uso de carne de caça na aldeia, está mais associado a aspectos culturais do que a subsistência. Isso talvez seja devido à forte influência da urbanização e das oportunidades de renda externa que permitem o uso de recursos faunísticos não tradicionais nos mercados próximos a aldeia. 

Abaixo você encontra o link para acessar o artigo.

          2020  

Use of game fauna by Fulni-ô people in Northeastern Brazil: implications for conservation. Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine.  

Josivan Soares da Silva, André Luiz Borba do Nascimento, Rômulo Romeu Nóbrega Alves, Ulysses Paulino Albuquerque .  

https://ethnobiomed.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13002-020-00367-3

*Lucrécia Braz dos Santos é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual do Piauí-UESPI. Atualmente é Bolsista de Cooperação Técnica (BCT) no Laboratório de Ecologia e Evolução de Sistemas Socioecológicos (LEA) do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Etnobiologia, Bioprospecção e Conservação da Natureza da UFPE, responsável pela parte de Divulgação Científica. 

Lattes: lattes.cnpq.br/3817142117520941

ethnomedicine.jpg
  • w-facebook
  • Twitter Clean

Apoio